Geohistória dos minerais estratégicos: o segredo do domíno tecnológico

Geo-História dos elementos estratégicos na América do Sul ®
A surpreendente evolução tecnológica das civilizações autóctones sul-americanas (andinas e do Brasil) e as consequências do contato com a Europa pós-medieval
Extraído de: Rios, Francisco Javier (2018) Ouro do Brasil / Histórias dos caminhos esquecidos. Belo Horizonte, CDTN ed., 272p.
RESUMO
Quando o conquistador espanhol Francisco Pizarro chegou ao Peru em 1532, encontrou culturas autóctones que possuíam dois mil anos de desenvolvimento em conhecimentos metalúrgicos avançados (prata, cobre e ouro), além de estruturas de transporte e técnicas agrícolas notáveis, não muito distantes do padrão europeu renascentista. Vários picos de evolução tecnológica foram atingidos nos Andes, a exemplo da surpreendente liga “Tumbaga” (desenvolvida pelos Moches, uma das culturas mais misteriosas dos Andes) e os fornos metalúrgicos Huayra dos Incas, que viabilizaram a imensa produção de prata. Nesse ponto, será que as culturas autóctones —do Brasil— participaram dessa evolução tecnológica? O artigo mostra relações surpreendentes e inesperadas entre os povos originários dos Andes e do Brasil.

Ilustração: Renata Augusta Azevedo
Em termos de desenvolvimento tecnológico dos povos originários, a realidade encontrada no continente americano por portugueses e espanhóis, foi certamente surpreendente, inesperada e contrastante. A priori, as culturas que povoavam o Brasil pré-português não possuíam o mais elementar conhecimento da mineração de ouro ou prata, e muito menos entendimento sobre metalurgia de metais. Já os espanhóis se depararam com os impérios Asteca e Inca, sem imaginar o grau de conhecimento metalúrgico dessas civilizações. É de se notar que a mineração andina no Peru incaico obedecia a uma estrutura secular muito bem definida, herdada de culturas anteriores (ex. Sican e Moche)[1]. Esses povos sabiam localizar jazidas minerais, a exemplo do que aconteceu com as grandes áreas no entorno de Potosí e Cuzco. O grau de especialização metalúrgica dessas culturas permitiu elaborar artesanatos que se equiparavam em qualidade com as peças dos melhores ourives europeus (1) (2). Entrementes, os conquistadores espanhóis, da mesma forma que a maior parte dos donatários portugueses, pouco ou nada entendiam de prospecção de metais e muito menos possuíam destreza nas técnicas metalúrgicas. A prova cabal disso, do lado espanhol, é indiscutível: durante os primeiros vinte anos de mineração —após a chegada dos Pizarro—, os povos autóctones andinos continuaram a gerenciar todas as etapas de produção de metais (3) (4). Assim, ainda que pareça inacreditável, por diferentes motivos em termos de prospecção e metalurgia de prata, os espanhóis dependiam do conhecimento metalífero desenvolvido pelos povos do Tahuantisuyo Incaico. A introdução do conhecimento tecnológico dos mineiros alemães, maiores especialistas em metalurgia da época, era impensável, pois tinham o acesso proibido às minas por motivos de sigilo. Nesse cenário, os Incas, para viabilizar a produção de prata, consumiam quantidades enormes de chumbo, além da escassa madeira disponível no altiplano. Isso constituía um problema sério. A continuidade da implementação da metodologia incaica, no intento de dar suporte à cobiça argentífera dos espanhóis, poderia ter resultado em inevitável problema ecológico no médio prazo. O motivo era entendível: o sistema inca somente era economicamente competitivo para jazidas de altíssimo conteúdo argentífero. Enfim, a lei do mercado falou mais alto, e solucionou o impasse. Nesse sentido, foi necessário sofrer um decréscimo da produção de prata, além de um aumento nos custos de mão de obra (provocado pelo suposto fim da escravidão indígena), para que o rei espanhol tomasse providências, e viabilizasse um salto tecnológico. Em face do exposto, a adoção do inovador método espanhol de El Pátio, provavelmente baseado em tecnologia alemã, foi a salvação das minas de prata espanholas, do Peru até o México, permitindo otimizar a produção, extrair metais até de jazidas com baixíssimos teores de prata e ouro (5).
Entretanto, os povos que antecederam, e posteriormente formaram parte do império incaico já haviam vivenciado pelo menos dois saltos tecnológicos. Um deles permitiu solucionar o problema da falta de alimento. Técnicas agrícolas inovadoras, a exemplo dos cultivos em terraços, atrelados a eficiente distribuição de tarefas e transporte, permitiram aumentar a oferta de comida, alavancando um incremento populacional. Outro salto tecnológico, relacionado com a metalurgia, permitiu desenvolver técnicas bastante avançadas de fundição e copelação, a exemplo do uso do forno de redução denominado Huayra (3)[2]. Os Incas, e povos predecessores, dominaram absolutamente todas as etapas da metalurgia do cobre, incluindo a fabricação customizada do bronze (6), chegando a desenvolver métodos de excelência, únicos no mundo antigo, em que se destacaram a tecnologia da cera perdida ou a fabricação de tumbaga (7)[3]. E as maravilhas andinas não ficavam por aí. Parte das ligas com cobre apresentavam proporções padronizadas de estanho. Pode parecer um dado corriqueiro, entretanto demonstra que utilizavam uma metodologia até certo ponto controlada. Além disso, algumas das áreas de metalurgia de cobre não possuíam minas de estanho nas proximidades. O fato sugere que os Incas possuíam um eficaz sistema de provisão de metais, viabilizando o funcionamento de toda essa estrutura. Aliás, os andinos precisavam de muito estanho (além de arsênio) para manter operacional a enorme produção artesanal de bronze.
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De mais a mais, esse conjunto de circunstâncias abre interrogações. É sabido que os Incas chegaram a lavrar reservas de ouro localizadas no lado peruano do Amazonas, perto do Acre. Nesse cenário, não poderiam ter ido pouco mais longe, procurando estanho nas (enormes) reservas localizadas na atual Rondônia? Essa possibilidade não deveria ser descartada, máxime levando em conta que existem possíveis evidências arqueológicas de presença incaica na área estanífera rondoniana, que estão atualmente sob estudo. Nesse sentido, o Prof. Izumi Shimada, antropólogo e especialista em temas incaicos, considera que a região de influência do império Inca se estendia até a Chiquitania, atingindo a atual fronteira entre Rondônia, Mato Grosso e Bolívia.
Além do mais, a utilização do cobre na América pré-colombiana não foi uma exclusividade dos povos andinos. Estudos recentes confirmaram que, há quase 7000 anos, os povos da península de Keweenaw (em Michigan, EUA) já utilizavam o cobre nativo na elaboração de artesanatos, embora não existam provas do seu uso com técnicas de fundição (8). Contudo, é um indício a sugerir que, nas Américas, a Idade do Cobre pode ter começado quase contemporaneamente com o restante do mundo antigo. Certamente, algum fator interno, ou externo, fez com que os andinos pré-incaicos, antes do estabelecimento do Império Romano na Europa antiga, já estivessem iniciando seu desenvolvimento tecnológico metalúrgico.
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Já a procura pelos metais, durante os tempos incaicos, atingiu proporções equiparáveis às dos contemporâneos europeus renascentistas. De acordo com o levantamento do Prof. Alberto Regal (9) no Império Inca (ou Tahuantisuyo) havia, pelo menos, 124 (cento vinte e quatro!) áreas de mineração, a maior parte em atividade permanente. É pertinente esclarecer que uma área de mineração podia incluir entre uma e várias lavras, e algumas possuíam até centros metalúrgicos. Dentre esses, destacava-se Batan Grande (norte do Peru), complexo minero- metalúrgico cuprífero altamente estratégico, com sete minas. O complexo foi desenvolvido pelas culturas Sican / Moche durante uns quatrocentos anos antes da chegada dos Incas. Possuía inúmeros centros de fundição, e uma enorme estrutura logística de apoio, o que denota a importância econômica e cultural do empreendimento (6). Esses metalurgistas, que produziam ligas de cobre-arsênio de altíssimo padrão, eram muito apreciados pelos Incas. Por motivos geopolíticos foram dispersados para outras partes do Tahuantisuyo (6), com o objetivo de implementar uma verdadeira transferência de tecnologia.
A despeito disso, os povos dos Andes nunca utilizaram o mercúrio para amálgamas com ouro e prata e, surpreendentemente, não desenvolveram a metalurgia do ferro. Isso mesmo, os Incas não fabricavam aço, que na Europa era conhecido desde o ano 1000 a. C. Aliás, a múmia do faraó Tutancâmon possuía um punhal de ferro meteorítico fundido, provando que os egípcios, há 3200 anos, já desenvolviam incipientes fornos de fundição ferríferos. Enfim, caso os Incas tivessem dominado essa técnica, dificilmente teriam sucumbido com tanta facilidade à investida ibérica. Interessante observar que a metalurgia do ferro foi um salto tecnológico que, na Europa, Ásia e África, ocorreu poucos séculos após o domínio das técnicas de fabricação do bronze. Requeria desenvolver fornos que ultrapassassem temperaturas de mais de 1300 graus, e o domínio de metodologias complexas até obter aço de qualidade. As terríveis espadas curtas de tecnologia renascentista tipo katzbalguer, utilizadas pela cavalaria do conquistador espanhol Pizarro, representavam o ápice do desenvolvimento medieval do aço forjado. Ainda hoje resulta dificultoso para um ferreiro experiente recriar uma peça daquelas. Longe disso, os povos andinos não atingiram esse patamar, embora descobrimentos arqueológicos recentes na Bolívia indiquem que já estavam testando tecnologias incipientes de fundição de ferro. Certamente, faltou tempo para chegar a uma katzbalguer.
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No ponto em que estamos, é importante observar três fatos importantes. O primeiro é que os andinos não utilizaram o ouro, prata e cobre como moedas, ou para fins comerciais. Se fosse assim, a procura poderia ter sido ainda maior. O segundo ponto é que boa parte dessas áreas continuaram em atividade após a chegada dos espanhóis, facilitando enormemente os projetos de fixação, cobiça e expansão europeus naquela região. Por outro lado, a mineração nunca ultrapassou em importância a produção agrícola (9).
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Mas, por que motivo o florescimento tecnológico incaico (e pré-incaico) supostamente não aconteceu com povos indígenas fora do âmbito andino, a exemplo do Brasil? Será que foi assim mesmo? Pois muito bem, vamos por partes. É sabido que os povos das florestas brasileiras, a exemplo da linhagem Tupi Guarani, estabeleceram assentamentos e roças, além de dominar a cerâmica. Aliás, os Tupi atingiram um patamar de tecnologia relativamente elevado em termos de cultivo de milho, mandioca, algodão, tabaco, mantendo alta produtividade, permitindo, se necessário, estabelecer estoques que permitiam descartar a ideia ultrapassada de economia de subsistência (10). Observe-se que o conhecimento Tupi em termos de plantas medicinais ultrapassava, e muito, o domínio que os médicos europeus pós-medievais possuíam. Nesse ponto, os Incas também investiam nesse tipo de conhecimento. Os médicos da cultura Kallawaya (atual norte da Bolívia) possuíam uma das farmacopeias mais ricas do mundo antigo (ainda hoje é notável), além de um status especial, e privilegiado, dentro do império incaico.
Nessa questão, estudos recentes, liderados pelo arqueólogo Eduardo Goes Neves, têm revolucionado o conhecimento a respeito dos povos indígenas da bacia amazônica (11) (12). Os dados que estão sendo veiculados salientam que algumas culturas das Guianas e Amapá construíam obras de engenharia hidráulica, a exemplo de canais e aterros. Perto dali, na Ilha de Marajó, a cultura Marajoara desenvolveu, no início da era cristã, uma sociedade complexa, que se destacava por elaborar cerâmicas de altíssima qualidade. Pela sua parte, nas nascentes do Xingu (atual Mato Grosso), as culturas autóctones construíam assentamentos que estavam conectados mediante caminhos alinhados por observações astronômicas, onde chamam a atenção os surpreendentes geoglifos. Avanços surpreendentes também foram verificados em assentamentos de Santarém e Oriximiná, da cultura tapajônica, onde foi atingido notável desenvolvimento de cerâmicas e sofisticadas estatuetas de pedra polida, que apresentam semelhanças com as estruturas megalíticas da região de San Agustín, nos Andes colombianos. De acordo com Neves, na região de Santarém provavelmente foi edificada uma cidade, ocupada por uma cultura que permaneceu por séculos no mesmo lugar. Nesse caso, seria a cidade mais antiga do Brasil (11). Entretanto, esses povos não extraíam metais para uso metalúrgico. É interessante salientar que um dos raros povos das florestas que, comprovadamente, extraíram e utilizaram ouro para fabricar ornamentos (no caso, colares para os caciques) foram os Tainos do Caribe, um ramo do povo Arawak. Foram aqueles nativos que deram de cara com Colombo em 1492.
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Deve ser mencionado um upgrade tecnológico derradeiro que mudou a estrutura dos povos Tupi atlânticos: à introdução dos instrumentos de ferro por parte dos europeus que chegavam para extrair o pau brasil. Segundo o escritor Jorge Caldeira, a utilização dos machados de ferro modificou rapidamente a produtividade das tribos, que cortavam as arvores e as vendiam para os atravessadores brancos, “fez com que grupos cada vez mais distantes foram sendo mobilizados pelas ofertas metalúrgicas e pelos pedidos de madeira, aumentando-lhes sua força guerreira e o controle de praticamente todos os territórios que quisessem”. Em outras palavras, “passaram a ter um papel que antes não existia na sociedade Tupi: o de pessoas ricas, capazes de acumular a partir de trocas comerciais” (10).
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Contudo, existiu um povo nativo do atual Brasil que, provavelmente, se aproximou tecnologicamente de Incas, Aimarás e Quéchuas. Foram os Chanés. Essa tribo, também de origem Arawak, formava parte do conjunto de povos que migraram desde a Venezuela para o Caribe/ Guiana. Também se deslocaram para o sul, se estabelecendo numa ampla região entre o Pantanal e os contrafortes da Cordilheira dos Andes. Os Chanés se dividiam em dois grupos: os orientais — que fixaram-se nas matas e planícies do leste — e os ocidentais, que migraram e se estabeleceram nos contrafortes dos Andes[4].
Os Chanés andinos teriam construído o notável centro cerimonial na fortaleza de Samaipata, no sopé dos Andes, onde se afincaram (14)[5]. É bom lembrar que as construções incaicas, nesse mesmo forte, são bem posteriores, evidenciando um período derradeiro de ocupação (15). O salto evolutivo dos Chanés ocidentais é sugestivo ao tempo que o motivo que os levou a abandonar as matas, e subir os contrafortes da cordilheira, ainda é um mistério. Provavelmente foram obrigados por causa de disputas territoriais. Caminhos semelhantes podem ter seguido povos agricultores do alto Madeira, da tradição Policroma, que galgaram e se estabeleceram nos Andes antes da chegada dos espanhóis no Peru (11). No sentido inverso, os Kallawaya dos Andes desciam até as florestas para procurar conhecimentos medicinais. A evolução dessas culturas no ambiente andino, e as dos próprios povos que as antecederam (e que depois, formaram parte do império incaico), prova que determinadas condições adversas (clima, altura, falta de alimentos) contribuem de forma contundente para a gestação de avanços tecnológicos.
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Outro exemplo de inovação técnica indígena foi a construção do caminho do Peabiru. Rebatizado pelos jesuítas como Caminho de São Tomé, foi, de fato, um conjunto de trilhas que, saindo do litoral paulista e catarinense, se unificava numa via única que subia em direção aos Andes (18) (19). De acordo com o historiador Hernani Donato, apresentava largura quase constante de 1,40 m. Seu leito, propositalmente rebaixado, costumava estar coberto por uma gramínea (puxa tripa), que não permitia o crescimento do mato — em alguns trechos aparecia sinalizado com inscrições rupestres (19). É sabido que os Guaranis conheciam algumas constelações e se orientavam perfeitamente nas longas viagens através do Peabiru. Nesse sentido, a rosa dos ventos guaranítica (desenho dos pontos cardeais) é praticamente igual àquela utilizada hoje em dia. Pelas características do caminho, a origem do Peabiru poderia ser relacionada com os Incas, ou até com povos andinos anteriores (19). Entretanto, pelo fato de estar localizado em área onde prevaleciam as tribos guaranis, é de supor que os construtores fossem povos dessa etnia, ou que poderiam ter incorporado conhecimentos que aprenderam com os andinos. Observe-se que os contatos e interações comerciais de guaranis com os habitantes do alto Peru constituem fato historicamente comprovado, desde antes da assunção do império Inca (20). Assim, a construção do Peabiru pelos guaranis muito possivelmente tenha representado um salto tecnológico notável, produto e consequência daquela longa relação temporal com os andinos. E, nessa empreitada, parte importante do motor foi o comércio, incluindo peças de ouro e prata.
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Como corolário, pode-se afirmar que a produção aurífera, a produção incaica foi notável, podendo ter atingido em torno de duzentas toneladas de ouro e mais de seiscentas de prata (21). Isso representa o dobro do total de ouro extraído nos Andes pelos espanhóis — até o século XVIII — após a debacle do império incaico. Para termos uma ideia comparativa, o resgate do Inca Atahualpa, soberano do Império, rendeu aos espanhóis (em 1533) em torno de seis mil quilos de ouro e mais de onze mil quilos de prata. Isso, certamente, permitiu aos europeus ter uma noção do significado da produção metálica incaica, além de insuflar ainda mais a cobiça.
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Conta a história que a maior parte dessa fortuna foi para Sevilha, para o agrado e lucro da Corte espanhola. E, por tabela, dos banqueiros da família Espinosa, patrocinadores da expedição[6]. Aliás, o papel estratégico da Banca Espinosa nas empreitadas castelhanas na América do Sul merece ser observado com atenção. Além de viabilizar o descobrimento e conquista do império incaico no Peru, do outro lado do continente — no Brasil português — um outro Espinosa espanhol protagonizou uma das maiores epopeias do sertão. Aquele pioneiro, Francisco de Espinosa, comandou a bandeira que abriu os portais do Brasil Central. Deixou um manuscrito que indicava a provável localização de minas de ouro, os pontos geográficos de referência, além das passagens indígenas ancestrais e das trilhas concernentes à montanha aurífera do Sabarabuçu que, a propósito, pertencia ao imaginário do povo Tupi-Guarani. Constituía-se, portanto, no mapa da mina, que foi utilizado como guia — e complementado — pelas Bandeiras posteriores durante um século. Mas, infelizmente, perdeu-se nas brumas do tempo. A reconstrução desse manuscrito chave na procura do ouro brasileiro — um autêntico elo perdido — e seus alucinantes desdobramentos são apresentados no primeiro volume da saga do Código do Ouro.
Referências
(1) HOSLER, D.. Los Orígenes andinos de la metalurgia del occidente de México. Boletin Museo del oro. Bogotá, Colombia. v. 42, p. 3-25, 1997.
(2) FERNANDEZ, P. Metalurgia del oro en la América pré-hispánica. In: ESPI, J. A. (Ed.). El libro de la minería del oro en Latinoamérica. [s.l.]: [s.n.], 2001. p. 27-34.
(3) TEREYGEOL, F.; CASTRO, G. La metalúrgica prehispana de la plata en Potosí. In: CRUZ; VACHER (Ed.). Mina y metalurgia en los andes del sur: desde la época prehispánica hasta el siglo XVII. 2008. p. 11-28. (Colección de Actas y Memorias del Instituto Francés de Estudios Andinos).
(4) PRESTA, A. M. La primera joya de la corona en el antiplano surandino: descubrimiento y explotación de un yacimiento minero inicial. Porco: 1538-1576. In: CRUZ; VACHER (Ed.). Mina y metalurgia en los andes del sur: desde la época prehispánica hasta el siglo XVII. 2008. p. 201- 230. (Colección de Actas y Memorias del Instituto Francés de Estudios Andinos).
(5) LANG, M. F. Azogueria y amalgamacion: una apreciación de sus esencias quimico-metalurgicas, sus mejoras y su valor tecnológico en el marco científico de la época colonial. Llul, v. 22, p. 655- 673, 1999.
(6) SHIMADA, I.; CRAIG, A. The style, technology and organization of Sican mining and metallurgy, Northern Peru: insights from holistic study. Chungara, Revista de Antropologia Chilena. v. 45(1), p. 3-31
(7) GONZALEZ, L. R. La rebelión de los bronces: estudio sobre la metalurgia prehispánica en el noroeste argentino. In: CRUZ; VACHER, (Ed.). Mina y metalurgia en los andes del sur: desde la época prehispánica hasta el siglo XVII. [s. l.]: [s. n.], 2008. p. 57-90. (Colección de Actas y Memorias del Instituto Francés de Estudios Andinos).
(8) BORNHORST, T. J.; ROSE, W. I. Self-guided geological field trip to the Keweenaw Peninsula, Michigan. 1994. Institute on Lake Superior Geology. Proceedings, 40th annual meeting, Houghton, MI, v. 40(2), 185 p. Disponível em: (Mineralogical Society of America: Virtual trip to the Keweenaw Peninsula-Mining history-pre 1840). Acesso em: 20 dez. 2017.
(9) REGAL, A. (1946) Las minas incaicas. Revista de la Universidad Católica (Lima). XIV, 1 p: 43-85, 1946
(10) CALDEIRA, J. História da riqueza no Brasil. Cinco séculos de pessoas, costumes e governos. [s. l.]: Estação Brasil, 2017. 621 p.
(11) NEVES, E. Amazonia ano 1000. National Geographic Brasil. Ano 11(122). p. 30-49, 2010.
(12) MORAES, C. P. Amazônia ano 1000: territorialidade e conflito no tempo das chefias regionais. Tese (Doutorado) – Museu de Arqueologia e Etnologia. USP, 2013.
(13) PAGE, C. A. La evangelización jesuítica entre los chiriguanos. Revista de Humanidades y Ciencias Sociales. v. 17(1-2), p. 193-228, 2013.
(14) PEREIRA NETO, P.C. Gringos, hippies e conquistadores em Samaipata, Bolívia: a fama e a infâmia dos forasteiros. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina, 2015. 183 p.
(15) MEYERS, A. Los trabajos arqueológicos en “el Fuerte de Samaipata”. In: MEYERS, Albert. Fuerte de Samaipata. Biblioteca Museo de Historia. Universidad Autónoma Gabriel René Moreno, Santa Cruz de la Sierra, 2015, p. 52-115.
(16) COMBES, I. Etno-histórias del Isoso. Chané y chiriguanos en el Chaco boliviano (siglos XVI a XX). In: Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 2005, v. 48, n. 2, 2005.
(17) RAMIREZ, R.; TIMOTHY, D. H.; DIAZ, E.; GRANT, U. J. Races of maize in Bolivia. Whashington: National Academy of Sciences/Publication 747, 1960. 147 p.
(18) GALDINO, L. Peabirú: os incas no Brasil. [s. l.]: Estrada, 2002. 189 p.
(19) BOND, R. História do caminho do Peabirú. [s. l.]: Aimberé, 2009. v 1.
(20) NORDENSKIOLD, E. The Guarani invasion of the Inca Empire in the sixteenth century: an historical indian migration. The Geographical Review, American Geographical Society, New York, v. 4, p. 103-121, 1917
(21) RODRIGUES, S. S. Etapas pre-colombina e colonial. In: ESPI, J. A. (Ed.). El libro de la minería del oro en Latinoamérica. 2001. p. 53-62.
(22) ESPINOZA SORIANO, W. Destrucción del Imperio de los incas. 4. ed. Lima: Amaru editores S.A, 1986.
(23) ROSTWOROWSKI, M. Historia del Tahuantinsuyu. 2. ed. Lima: IEP Instituto de Estudios Peruanos, 1999.
(24) BUSTO DUTHURBURU, J. A. Pizarro. Lima: Cope, 2001.
(25) DIAMOND, J. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2013. 472 p.
(26) ROVIRA, S. La metalurgia inca: estudio a partir de las colecciones del Museo de América de Madrid. Bulletin de l'Institut français d'études andines 46 (1), 2017.
Notas
[1] Trabalhos arqueológicos indicam que a região passou por uma época de esplendor por volta do século VII (d. C.), quando foram dominadas, com alto grau de perfeição, as técnicas de trabalho com ligas de cobre-prata, bronzes (cobre-arsênio, cobre-estanho) e ouro-cobre. Entretanto, a primeira evidencia de trabalho artesanal em ouro (encontrada no Apurimac, Peru) data de 4500 anos atrás. Contudo, considera-se que o ponto de partida da mineração e metalurgia pré-incaicas ocorreu na região de Huari, no centro-norte do Perú, há uns 3000 anos (1)(26).
[2] Na Europa, somente os suecos haviam desenvolvido um método similar, baseado na força do vento.
[3] As tecnologias desenvolvidas pelos povos andinos eram complexas. O ouro era trabalhado através da elaboração de laminados, ou mediante fundição pelo método ameríndio da cera perdida. Provavelmente, o pico evolutivo metalúrgico foi atingido com o domínio da técnica de liga “Tumbaga”. Também conhecida como liga cobre-ouro, ou cobre-ouro-prata, foi desenvolvida por uma das culturas mais misteriosas dos Andes, os Moches — precursores ancestrais dos Incas — que também utilizavam o mercúrio para tintas (2). Não foram os únicos. Os Nasca e os Chimu, há dois mil anos, atingiram altos conhecimentos metalúrgicos. Outras metodologias amplamente utilizadas pelos andinos foram o “dourado por fusão” e “dourado por oxidação”. O primeiro consistia em submergir um objeto metálico dentro de ouro fundido a baixa temperatura, gerando um “banho” em ouro. No segundo, a Tumbaga era submetida a um processo de banhos de amônia, sob aquecimento, para oxidar o cobre, conseguindo a proeza de acumular o ouro na superfície, concentrando o cobre no núcleo (2). Interessante observar que outro marco evolutivo foi atingido por volta do ano 1000 pela cultura denominada “La Aguada”, pertencente ao povo Calchaqui, na atual Catamarca (norte da Argentina), posteriormente incorporado ao território Incaico. O método da cera perdida pode ter sido originado durante o esplendor dessa cultura, assim como a padronização na elaboração de bronze (ligas de cobre e estanho) (7).
[4] Os Chanés foram, em parte, escravizados pelos aguerridos Chiriguanos. O nome correto desses últimos é Avá-Guarani, produto de uma mistura entre Guaranis e Chanés (13) Os próprios Chanés consideravam aos Chiriguanos como sendo um povo tecnicamente muito atrasado (16) e ensinaram para esses as metodologias de cultivo do milho (17).
[5] Foi considerada, por alguns especialistas em arqueologia, como sendo a maior obra de arquitetura cerimonial rupestre do planeta. De fato, um gigantesco morro de arenito completamente lavrado por diferentes culturas ao longo de séculos, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO (15). Está localizada num setor nevrálgico, 100 km a oeste de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), exatamente no lugar onde a Cordilheira dos Andes atinge sua máxima largura e vira para oeste. O naturalista francês D’Orbigny, um dos poucos estrangeiros que visitou as capitanias brasileiras no final do rush aurífero, a descreveu como um “lavadeiro de ouro”. Embora a relação entre Samaipata e o ouro já foi constatada pela arqueologia (8), certamente é muito mais do que isso.
[6] Já o real prisioneiro Inca, embora pagando o absurdo preço exigido pelos captores, não teve a mesma sorte. Atahualpa foi julgado pelos espanhóis, condenado por heresia e teve que escolher entre as opções sugeridas pelo iletrado Pizarro e assessores: a fogueira, como primeira opção, ou enforcamento no garrote vil, prévio batismo. Escolheu a segunda opção, e marcou o início da caminhada irrefreável dos ibéricos em direção ao Cuzco (22,23,24). A tarefa dos europeus foi facilitada por uma arma biológica, a varíola (25), que eliminou parte da corte incaica, contribuindo para gerar uma guerra civil pela sucessão ao trono. A varíola, certamente, também fez estragos do lado Brasileiro, eliminando enormes populações de povos originários.







