Uma introdução aos dados conhecidos sobre a quantidade de ouro extraído no Brasil durante a corrida ao ouro do século XVIII
- Renata Azevedo
- 18 de nov.
- 5 min de leitura
Extraído de: Rios, Francisco Javier (2018) Ouro do Brasil / Histórias dos caminhos esquecidos. Belo Horizonte, CDTN ed., 272p.
Resumo
Muito foi escrito, e discutido, sobre a quantidade de ouro extraído em aluviões e minas brasileiros durante o impressionante rush do século XVIII. Em termos de volume extraído, há evidentes divergências entre autores brasileiros, portugueses e de outras nacionalidades. Nessa linha, é preciso dizer que os trabalhos aqui mencionados raramente abordam, ou quantificam, o enorme volume de ouro contrabandeado nessa época, acompanhando caminhos insólitos que rasgaram o sertão. É de se notar, ainda, a falta de cruzamento com dados geológicos que permitam aprimorar os cálculos do ouro extraído, incluindo uma estimativa do que se perdeu (de ouro e outros metais preciosos) durante o processo de extração, separação e transporte. Eis aqui que a geo-história poderá nos ajudar com dados muito valiosos, que nos levarão a revelações alucinantes.
Muito foi escrito e discutido sobre a quantidade de ouro extraído em aluviões e minas do Brasil, principalmente durante o impressionante rush do século XVIII. O Visconde de Santarém, ainda no século XIX, foi o primeiro a tentar fazer uma estimativa do ouro que saiu do Brasil, através de notícias levantadas na Europa sobre as cargas chegadas em Lisboa (1). Já os trabalhos de Magalhães Godinho (2) e Simonsen (3), os dois da década de 1950, e o de Virgílio Noya Pinto (4), nos anos 1970, são as referências numéricas iniciais geralmente consideradas como sendo as mais confiáveis em abordagens históricas. Esse último autor, segundo vários historiadores, ganharia créditos por ter escrito a melhor sistematização dos dados disponíveis constituindo-se em referência obrigatória para estudos sobre esse tema (5). Entretanto, Jaime Cortesão pugnaria por desacreditar qualquer estimativa, insistindo nos fluxos clandestinos e apegando-se a testemunhos da administração colonial que denunciavam esse flagelo do aparelho fiscal (5).
Como pode ser advertido, Jaime Cortesão levanta um ponto fulcral no cálculo final do ouro extraído no Brasil: o contrabando do metal (fato que será estrategicamente discutido no segundo volume do Código do Ouro). Em 2011, Lucas Figueiredo apresentou um levantamento sobre a quantidade de ouro que teria sido retirada no século XVIII. Segundo sua estimativa, baseada em trabalhos anteriores, em cem anos o Brasil teria produzido 1000 toneladas (t) de ouro. Isso representa mais da metade do total produzido no mundo inteiro nesse período (1887 t), ao tempo que 800t teriam seguido para Europa (7).
Nesse contexto, decidimos ampliar a base de dados de cálculos sobre a produção de ouro apresentada por vários historiadores para o período 1697-1810. A esse respeito, observamos que os números variam, curiosamente, de autor para autor. Assim, o Barão Eschwege e Noya Pinto (4) estimaram que a produção brasileira (sem contar a produção da Bahia), foi de ~800 t e 876 t respectivamente. Valor aproximado, de 866 t, foi calculado pelo português Eurico Pereira (8). Veremos que a inacreditável omissão dos dados da Bahia, que, aliás, não foi a única, obedece a situações que entram no terreno do lendário, e algumas beiram o esdrúxulo. Já os cálculos feitos por João F. Normano, Carlos Fatorelli e Pandiá Calogeras (9) forneceram quantidades maiores de metal, 855 t, 913 t e 993 t, respectivamente, provavelmente considerando, timidamente, as extrações feitas na Bahia[1].
Tabela mostrando cálculos de produção de ouro publicados por autores referenciados no texto.

Assim sendo, é possível perceber que a oscilação dos valores considerados por esses autores não é muito discrepante, incluindo ainda aqueles que omitiram a produção da Bahia[2].
Muito bem, agora é que começa o problema das comparações. Vamos diretamente ao ponto. Resulta interessante verificar que outros autores, nenhum deles brasileiro ou português (e que nunca estiveram no Brasil), apresentaram valores de produção de ouro bem mais altos. Assim, o polêmico abade francês Guillaume Thomas François Raynal apresentou, em 1780, um cálculo que, somente para o período entre 1700 e 1755, sugere uma produção de 943 t (11). Nesse cenário, o inglês Jacob Danson (10) foi mais longe, afirmando que a produção foi de aproximadamente 1500 t de ouro (dado que teria sido aceito, curiosamente, pela Statistical Society of London). Todavia, o naturalista prussiano Alexander Humboldt (12) (13) estimou um valor pouco inferior, em torno de 1400 t, para o período de 1680-1803. Surpreende, contudo, o cálculo do americano Alexander Del Mar, ex-diretor do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, utilizando dados próprios e de vários outros autores estrangeiros, propondo (em 1902), uma produção de 1300 t de ouro considerando o período 1680-1820. Finalmente, o economista francês Michel Chevalier, contemporâneo de Del Mar, sugere um valor quase idêntico, porém considerando o período até 1850. Veremos que as entrelinhas das cartas guardadas por Del Mar são peça-chave para entender a situação.
No segundo volume do Código do Ouro, apresentaremos uma detalhada revisão geo-histórica sobre o que realmente teria sido produzido no Brasil no século XVIII, e a quantidade de ouro que, de fato, chegou em Portugal. A discussão aportará dados extremamente sugestivos, sobre as divergências observadas entre autores brasileiros, portugueses e de outras nacionalidades. Nessa linha, é preciso dizer que os trabalhos aqui mencionados raramente abordam, ou quantificam, o enorme volume de ouro contrabandeado nessa época, acompanhando caminhos insólitos que rasgaram o sertão. É de se notar, ainda, a falta de cruzamento com dados geológicos que permitam aprimorar os cálculos do ouro extraído, incluindo uma estimativa do que se perdeu (de ouro e outros metais preciosos) durante o processo de extração, separação e transporte. Eis aqui que a geo-história poderá nos ajudar com dados muito valiosos, que nos levarão a revelações alucinantes.
Referências
(1) COSTA, L. R. Os garimpos clandestinos de ouro em minas gerais e no Brasil: tradição e mudança. História & Perspectivas, Uberlândia (36-37), p. 247-279, jan./dez. 2007.
(2) MAGALHAES GODINHO (in. NOYA PINTO, V. O ouro brasileiro e o comércio anglo-português: uma contribuição aos estudos da economia atlântica no século XVIII. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979.
(3) SIMONSEN, Roberto C. História econômica do Brasil: 1500-1810. São Paulo: Companhia Editora Nacional, INL, 1977.
(4) NOYA PINTO, V. O ouro brasileiro e o comércio anglo-português: uma contribuição aos estudos da economia atlântica no século XVIII. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979.
(5) COSTA, L. F.; ROCHA, M. M.; SOUSA, R. M. de. O ouro cruza o Atlântico. Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, p. 70-87, 2003.
(6) COSTA, L. F.; ROCHA, M. M. Remessas do ouro brasileiro: organização mercantil e problemas de agência em meados do século XVIII. Análise Social, v. XLII (182), p. 77-98, 2007.
(7) FIGUEIREDO, L. Boa ventura!: a corrida do ouro no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2011. 387 p.
(8) PEREIRA, Eurico. El oro en la época colonial. In: ESPI, J. A. (Ed.). El libro de la minería del oro en Latinoamérica. p. 35-40, 2001.
(9) CALÓGERAS, J. P. Formação histórica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.
(10) DEL MAR, A. A history of money in ancient countries. London: George Bell and Sons; Covent Garden, 1885. 343 p.
(11) DEL MAR, A. A history of the precious metals. 2. ed. New York: Cambridge Encyclopedia Company, 1901. 467 p.
(12) HUMBOLDT, F. W. A. Essai politique sur le Royanne de la Nouvelle-Espagne. Paris, 1811.
(13) HUMBOLDT, F. W. A. Examen critique de l’historie de la geographie du Nouveau Continent. Paris 1814-1834. , 1814
Notas:
[1] Nas 993 toneladas calculadas pelo diplomata Pandiá Calógeras, em 1903, devemos observar que foram consideradas as produções de Minas Gerais entre 1700 e 1801, e a do resto do Brasil, entre 1700 e 1822, incluindo no cálculo umas 70 t que corresponderiam à produção de São Paulo, Bahia e Ceará.
[2] Deve-se observar que os “manifestos do 1% do ouro”, levantados pelas pesquisadoras portuguesas Leonor Costa, Maria Rocha e Rita Martins de Sousa, a partir de dados da Casa da Moeda de Lisboa, indicam que nessa instituição estão registradas quase 300 t de ouro para a segunda metade do século XVIII. Interessante salientar que quase a totalidade desses “manifestos” corresponde ao metal proveniente das Minas Gerais.

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